24 janeiro 2012

ENGANO

adormeci entre taças de vinho e
sobre dezenas de crônicas
que não consegui dar fim.
em cada letra do diário
pensava ver o rosto dela
desenhado em tons sépia.
certo é que a solidão
era um engano causado
pela distância entre nossos corpos.

11 janeiro 2012

06 dezembro 2011

DESAPEGO

rastros de sentimentos
deixados pelo caminho
esquecidos junto
com o azul dos teus olhos.

19 novembro 2011

ENQUANTO VOCÊ NÃO VINHA

(Mesmo depois de tanto tempo eu ainda me perguntava se você voltaria)

Me debrucei sobre a janela do quarto na esperança de a ver subir pela rua lateral que dava acesso à nossa casa. Fazia frio e tive que dar mais uma volta no cachecol. As pessoas circulavam com sacolas de mercados e outras carregavam seus guarda-chuvas para se protegerem do céu cinza enquanto você não vinha. Reparei que o semáforo da esquina ficava aberto aos carros por 1 em cada 3 minutos, o que dava 20 minutos em uma hora. Nesse tempo não a vi em nenhum dos carros que pararam no sinal e muito menos a vi atravessar a rua entre os pedestres.

Nena, não sei se você algum dia notou, mas alguns cantos da janela do nosso quarto necessitam de reparos. A tinta está velha e até consegui rabiscar seu nome depois de tanto repetir as formas das letras forjando com a unha do meu dedo indicador esquerdo. O único momento em que a fechei foi quando começou a chover. Logo pensei em sair ao seu encontro. Fiquei com medo de que você não tivesse como se proteger daquela água que caia intensamente. Cheguei a abrir a porta e apagar a luz da sala, mas fiquei com receio de que aquilo parecesse desespero e impedisse sua volta, pois você precisava der ar, não é?

Desisti e resolvi ir à cozinha preparar um café para nós dois, mas do jeito que você gostava. E ali fiquei esperando, sentado à mesa, enquanto a bebida esfriou, assim como esfriou minha esperança e não a vi voltar.

(Todas as manhãs ainda abro a janela e reparo nos rostos que cruzam o sinal. Nunca a reformei e seu nome continua lá rabiscado).

06 novembro 2011

DESPERTAR SAUDOSO

Levantei da cama na ponta dos pés e vesti-me com destreza, sem cometer movimentos bruscos. Levei meu all star branco pela mão e fechei vagarosamente a porta do quarto, evitando o menor ruído possível. Pensei ter saído sem acordá-la, enquanto ela lamentava a falta de meus braços.

20 outubro 2011

INSTANTE RETRÔ

Gostava de mascar chiclete com sabor de melancia. Confesso que nunca entendi a estranha preferência. Certa vez me disse que daquele modo sentia menos o gosto de cigarro de minha boca. Já eu sentia cada vez menos o gosto do beijo dela. Um dia até a prometi parar de fumar. Ela desapareceu de minha vida antes que isso acontecesse.

- Boa tarde! O que é para você, rapaz?
- Quero um chiclete. Pode ser aquele ali...
- Este de limão?
- Não. O de embalagem vermelha e verde.
- Ah, sim, o de melancia...
- É...
- Custa R$ 1,00. Cigarros também?
- Não, grato.
- De nada.
- Até mais.

05 outubro 2011

TARDE QUENTE DE INVERNO

Tarde quente de inverno,
Café gelado para matar minha sede.
Ah, que falta ela me faz! 
O que faria eu agora a seu lado?
A distância do tempo impede que minha mente conceba algo... 

O relógio marcava 11h38. Fazia calor naquela manhã de inverno. Acordei suado e de mau humor. Percebi estar meio cabisbaixo também. Acreditei ser reflexo do final triste do livro que acabei de ler na noite anterior. É uma pessoa triste com vocação para ser alegre*, dizia uma passagem da história. Como me caia bem.

*A trégua – Mario Benedetti

23 setembro 2011

A MIM

Me olhe
Me ouça
Me sinta
Me tenha
Me beba
Me mastigue
Me exprima
Me leve
Para dentro de ti.

10 setembro 2011

INVERNO DE 68

Dos teus olhos de ressaca
Me ficaram as gratas lembranças
Das tardes em que fomos
Felizes para sempre e

Dos segundos infinitos de calmaria,
Assim como os planos de velhice a dois
Em contos infantis
Com sonhos puramente alcançáveis.

Nas milhares de páginas
Que escrevi depois de acordado
Ficaram as doces marcas

E nelas resolvi não tocar
Para que o calor daquele inverno
Voltasse, às vezes, a aquecer minh'alma.