um dia sem o castanho
dos teus olhos
sem a graça
do teu riso
sem tua pele
teu pêlo
teu cheiro
teu cabelo...
... não é vida,
é punição!
25 julho 2012
15 julho 2012
22 junho 2012
ANTES DO DERRETER DAS ASAS
Quando estendeu a mão eu prontamente aceitei. Não havia como recusar o convite de fugir para o mais longe do longe. Afinal, logo a manhã chegaria e o sol derreteria nossas asas, levaria às cinzas os devaneios noturnos que tivemos num universo surreal.
- Venha, vamos rápido antes que o cantar dos pássaros nos acorde e nos devolva a esse mundo formatado e gris. Venha, é tão lindo esse caminhar torto que envergonharia a tantos sem espírito.
Não exitei e tampouco medi meus passos a caminho do destino sem destino. Queria correr mais rápido que o relógio, derrotar a pontualidade absurda das horas, esticar o tempo ao máximo até que chegasse o momento de o mundo acordar e preencher seus duros prédios de concreto com sonhos impedidos, perdidos.
Carreguei a sacola com os minutos que havia guardado, caso precisasse deles, a peguei pelo braço e partimos. Voamos, livremente, contra a chegada do sol.
11 junho 2012
SILÊNCIO
'Silencio, que estan durmiendo
los nardos y las azucenas
no quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando moriran' *
Dançava há anos o antigo bolero, sozinha, sobre o tapete de um vermelho desgastado na sala. O abajur, à meia-luz no canto do cômodo, era o único companheiro das noites solitárias. Acreditava não saber mais como bailar a dois. Porém, seguia dançando..
*Silencio - Ibrahim Ferrer
los nardos y las azucenas
no quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando moriran' *
Dançava há anos o antigo bolero, sozinha, sobre o tapete de um vermelho desgastado na sala. O abajur, à meia-luz no canto do cômodo, era o único companheiro das noites solitárias. Acreditava não saber mais como bailar a dois. Porém, seguia dançando..
*Silencio - Ibrahim Ferrer
21 maio 2012
COMO UMA CANÇÃO DOS BEATLES
Fumava num canto da cozinha enquanto eu separava o pó para preparar o café. Em algum momento lhe perguntei qual xícara preferia, mas sabia que gostava da bebida com pouco açúcar. Ela batia as cinzas do cigarro na fresta da janela e me contava um problema qualquer do seu dia cansado. Os cabelos castanhos longos e molhados depois do banho lhe caiam sobre o rosto e pareciam me convidar para que eu me aproximasse e os ajeitasse com uma das mãos. Os olhos verdes reforçavam o pedido. Eu a via falar e falar e falar e pensava como tinha se transformado num personagem para os melhores enredos de textos que ainda escreveria. A fotografia daquela noite gelada de abril ainda me inspira. E, ao fim de tudo, me dei conta de que ela havia se tornado o sentimento saudoso e inexplicável que as canções dos Beatles me traziam.
16 maio 2012
PRÓXIMO TREM
Empurrei a porta
Parti pelo corredor
Corri das lembranças que me seguiam
E a luz do dia me cegava.
Segui.
Tropecei, levantei.
Ah! Um grito
Misto de raiva e dor.
Inábil coração
Oração de mãos coladas
Então separadas.
Calor
Sufoco
Foi por pouco,
Amor ator.
Partida
Só de ida
Sozinha
E, agora?
A mesma estação
Uma nova linha.
Parti pelo corredor
Corri das lembranças que me seguiam
E a luz do dia me cegava.
Segui.
Tropecei, levantei.
Ah! Um grito
Misto de raiva e dor.
Inábil coração
Oração de mãos coladas
Então separadas.
Calor
Sufoco
Foi por pouco,
Amor ator.
Partida
Só de ida
Sozinha
E, agora?
A mesma estação
Uma nova linha.
07 maio 2012
NAS TARDES DE DOMINGO
Arrumei tua mala com todo o carinho restante e olhe, meu querido, não é pouco. Dentro até coloquei umas folhas secas de acácia para perfumar. Quero que tu vás bem, de cabeça erguida, limpo. Teus óculos escuros estão no bolsinho da frente. Certamente tu o usarás nestes dias claros. Aliás, tenho a impressão de que este sol do inverno parece deixar as manhãs mais coloridas, com mais vida. É disso que precisamos, vida. Por isso, parta e não te preocupes comigo, não te preocupes se eu ficar partida. E, se por acaso perguntarem por mim, apenas digas que fiquei bem, sóbria, embora pela metade.
E eu sei que sentirei tua falta nas tardes de domingo...
27 abril 2012
GRACIAS POR EL FUEGO
Risquei o último fósforo e saí pela casa procurando um lugar confortável para descansar. A chama iluminava pouco, mas o suficiente para eu poder caminhar por entre os cômodos empoeirados. Andei por horas. Nada. Não encontrei um canto se quer. Estranhamente, mesmo pálida, a chama continuava a me acompanhar.
O silêncio do local era ensurdecedor e o vazio imperial transbordava sobre minhas costas cansadas. Em meio à escuridão, a chama, cada vez mais escassa, contrastava com meus olhos castanhos, baixos, prófugos. Fechei-os. Assim podia imaginar o que quisesse e com a luz que desejasse. Entretanto, sabia que difícil seria novamente abri-los para a realidade.
No fim, acabamos por desistir. A chama e eu. Senti seu calor acariciar a ponta dos meus dedos. Antes que ela morresse de vez aproveitei para acender um cigarro. Fumei-o como se fosse o último. Tive a impressão de que realmente era. Ela apagou. Eu nunca mais abri meus olhos.
17 abril 2012
QUANDO TUDO PARA
e quando meu corpo cola no teu
quando teu cabelo mistura no meu
quando minha voz encontra tua fala
e a sintonia toma conta da sala
eu nem me importo com as linhas
as cores, a pintura ou a tela
e não me faz mais diferença saber
o que ocorre
do lado de fora da janela.
quando teu cabelo mistura no meu
quando minha voz encontra tua fala
e a sintonia toma conta da sala
eu nem me importo com as linhas
as cores, a pintura ou a tela
e não me faz mais diferença saber
o que ocorre
do lado de fora da janela.
10 abril 2012
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