18 fevereiro 2013

LOUCO DEVANEIO

Calço apenas 39, All Starr branco, cano alto
Mas tenho uma máquina fotográfica potente que compensa.
Ela vive em devaneios, louca varrida cercada de gatos
Óculos retrô vermelhos
E xingamentos sobre minhas tatuagens.
A convido para um filme
E vejo que, na real, o louco sou eu.
Ela se atrasa e perdemos a sessão
Eu rio, ela se desculpa.
Sugere Harry Potter
Desconverso e a chamo para ler no parque
Ela me enrola e toma um sorvete no calor
Enquanto meus pensamentos derretem.

- Oh, Deus!
Exclamo o nome dele só por heresia.
Quem é você, afinal? 
Eu vejo tudo com meus olhos de águia, veneno de escorpião
Mas dessa vez me perco sem foco.
Fico receoso e desconverso
Me perguntam quem me desafia
E vejo que, no fundo, os outros é que têm olhos de águia.

- Cuidado, estão nos vigiando
Ela grita, doida vegetariana.
Nossos passos são rastreados virtualmente.

- Apenas uma amiga
Despisto
Respondo sem saber ao certo
Será mesmo?

Enquanto me perco no louco devaneio
Imagino seu pijama novo baseado em ficção.
E, ao fim, percebo que somos dois irreais,
O personagem do filme e eu.

19 dezembro 2012

NO VERSO DO COMPROVANTE DE VOTAÇÃO

Bell, hoje encontrei na minha carteira o comprovante da tua votação de 2008. Antes de me entregar tu desenhou um rosto bobo e disse que era o meu. O rosto dizia que eu gostava de ti e eu neguei só por bira. Antes de me entregar tu disse que havia anulado o voto. Disse que a esquerda não era mais a mesma e que naquele instante o protesto era todo teu. Bell, tu lembra que rolávamos de rir ao assistirmos os candidatos na tv? Era um bando de patifes que nos enchiam a boca de xingamentos. Era nossa programação noturna favorita naquela época.

Bell, tu votou este ano? Não sei mais nada de ti. Não sei a cor que tu usa atualmente no cabelo ou se ainda prefere o vermelho nas unhas. Tu ainda carrega aquele botton dos Beatles que te dei? Até tentei, mas não tive coragem de te esperar na frente da tua sessão de votação, número 94, zona 33. Tive medo de tu me ignorar como ignorava quem tentava lhe entregar um panfleto de candidato na rua. Tive medo de tu rir da minha cara besta, das minhas promessas, da minha falta de jeito em frente à câmera. Fiquei sem ação, fiquei em casa, Bell. Fiquei me espelhando na cara boba desenhada no verso do teu comprovante de votação de 2008.

15 novembro 2012

NÃO SOLTE DA MINHA MÃO

Tenho medo de esquecer a roupa no varal e chover, de deixar a bebida exposta ao sol, de que parem de recolher o lixo, ou de que o vizinho não corte mais a grama e meu quarto encha de mosquitos. Tenho medo de que a tv fique ligada o tempo todo e venha alta a conta de luz, de que a fumaça do cigarro me intoxique até a morte, ou que eu perca a vontade de escrever. Tenho medo de perder a chave de casa, de que roubem os meus cd's do Beatles, a minha camiseta do Chê, de que retirem das paredes meus quadros retrôs, de que adiantem os relógios e você parta antes de meus dias.

Tenho medo de que levem embora as tuas cartas de amor, de perder aquela mensagem bonita que você me mandou naquele domingo em frente ao rio, de desaprender a fazer o chimarrão, de esquecer de passar o café do modo que você gosta. Tenho medo de me desorientar sem tua mão, de deixar a panela por muito tempo no fogo, de temperar demais a salada, de esquecer a porta de geladeira aberta e azedar o leite. Tenho medo de que as coisas que te cercam me esqueçam, de não brincar mais com o cachorro, de não subir mais no pé de jabuticaba, de que tu não lembre do meu aniversário, de que tu me mate aos poucos dentro de ti.

Tenho medo de encontrar velhos e bonitos bilhetes em livros guardados, declarações em cadernos de caligrafia, ou em recibos antigos de supermercado. Tenho medo de esquecer meu riso, de extraviar a minha escova de cabelo, de perder a hora do dentista ou meu cortador de unha, de desligar o celular para não ouvir a função 'soneca' e chegar atrasado na tua formatura. Tenho medo de me perder por aí, de me perder das tuas linhas, de me perder de mim.

07 novembro 2012

ROTO

ando roto pela vida
cabelo no chão do banheiro
chinelos espalhados pela casa
quadros tortos na parede
barba por fazer
unha por cortar
sorriso por se abrir
coração para colar.

30 outubro 2012

DO CAFÉ E OUTROS ALUCINÓGENOS

- Açúcar ou adoçante?
- Duas colheres de açúcar, please!

Mexeu o café e me alcançou como se me conhecesse de outras ressacas. Seus olhos, negros como a bebida, mantinham presa minha atenção.

- Experimenta aí pra ver se tá bom assim.
- Bah, tá ótimo, honey. Fico até sem jeito.
- Sem jeito ficaria eu se tu não aceitasse o café, né?!

Ela sorriu. Eu fiquei mesmo desajeitado, fora de eixo, mas fingi firmeza. Era bom nisso. Tomamos o café na tentativa de rebater o gosto do álcool que deixou nossos corpos cansados. Riamos até do avançado das horas, da fuga precipitada do sono enquanto os Stones cantavam baixinho ao fundo.

'she's like a rainbow coming
colors in the air
oh, everywhere
she comes in colors'

Falávamos de generalidades como antigos conhecidos, companheiros envelhecidos como vinho, duas pessoas que se reencontram ao passar de certo tempo para colocar a vida em dia. E, de certo modo, colocávamos. Nos servíamos de diálogos que embriagavam, de risos que despertavam a curiosidade em doses homeopáticas. Ambos livres de prisões sentimentais, de frustrações contemporâneas ou receio do novo que vinha junto com o nascer do dia.

- Bem, acho que nessa hora já tem ônibus.
- Pra quê?
- Acabou o café, o cd chegou ao fim e o reflexo do sol já bate no relógio. A noite cansou e virou dia, não percebeu, honey? Preciso ir nessa.
- Justamente, pra mim ainda é cedo. O domingo tá só espreguiçando os braços, guri. Fica aí e toma outro café, oras! Agora até te ofereço algo pra comer se tu topar.

Deixei escapar um sorriso desconcertado. Ela comemorou a vitória de maneira contida. E ficamos, os dois, a usar o café como desculpa para esticar ao máximo a duração do tempo.

15 outubro 2012

DO LARANJA E OUTROS ALUCINÓGENOS

Quando abriu a janela o dia despertava preguiçoso, como se cansado após uma noite abarrotada de momentos sublimes. O sol abria os braços devagar e banhava sua pele clara em tons laranja, enquanto Harrison murmurava em seu ouvido: “here comes de sun, little darling, here comes the sun…”. No canto do quarto eu permanecia em silêncio, como que anestesiado ao ver o romance entre ela e o sol. Meus olhos registravam cada cena como fotos que não são apagadas com o amarelo do tempo.

04 outubro 2012

BILHETE DE SUPERMERCADO

Ainda guardo comigo aquele último bilhete de supermercado no qual você desenhou um coraçãozinho no verso com as palavras 'tum-tum'. Na época perguntei o motivo e você disse que era o teu e que batia por mim. Falei que não precisava anotar nada, pois me lembraria de todos os itens. No entanto, mesmo assim você me deu aquele pedaço de papel e pediu cebola, bife, arroz, feijão preto, chocolate, e brócolis. Brinquei que o chocolate deveria ser escrito por último na ordem da lista, já que comeríamos depois. Então, ironicamente, ao voltar eu trouxe o chocolate e acabamos o comendo antes de prepararmos a janta. E foi nossa última refeição juntos. E foi doce.