26 abril 2015

120 SEGUNDOS

você saiu e eu fiquei como
se tivesse perdido
aquele botãozinho para girar
os ponteiros do relógio.

então, me dei conta
de que o tempo
rastejava preguiçoso
com segundos em dobro.

era possível atravessar a rua
bailando, zombando do semáforo
e ainda assistir os carros

contando os centímetros do asfalto.
e era bem mais longo o dia
sem você.

22 março 2015

O CASÓRIO

Veja bem, meu bem
Que desfeita
Por meio de silêncio
Dificilmente eu faria


Nem distante
Nem no cotidiano
Dessa minha correria
Te ignorar eu ousaria.

Eu digo mais:
Num sábado logo cedo
Sem receio ou algum medo
À beira do lago te levaria

Sobre a grama verde
Ao som de Beatles
Com teu riso e tua poesia
Junto a mim te casaria.

13 novembro 2013

DOCE RENDIÇÃO

e nos dias cinzas
que tomam conta do meu cotidiano
do céu que cai cedo
como se fugisse do frio

do vento que sopra sem direção
varre meu o cabelo
gela a minha boca
e arrepia o pelo

do calor que toma conta da cama
e me enche de preguiça
ao ver a chuva lá fora
que se demora

do inusitado
as ruas, a música
o bar e a falta de dinheiro

os olhos dela
viraram
minha doce
rendição.

18 fevereiro 2013

LOUCO DEVANEIO

Calço apenas 39, All Starr branco, cano alto
Mas tenho uma máquina fotográfica potente que compensa.
Ela vive em devaneios, louca varrida cercada de gatos
Óculos retrô vermelhos
E xingamentos sobre minhas tatuagens.
A convido para um filme
E vejo que, na real, o louco sou eu.
Ela se atrasa e perdemos a sessão
Eu rio, ela se desculpa.
Sugere Harry Potter
Desconverso e a chamo para ler no parque
Ela me enrola e toma um sorvete no calor
Enquanto meus pensamentos derretem.

- Oh, Deus!
Exclamo o nome dele só por heresia.
Quem é você, afinal? 
Eu vejo tudo com meus olhos de águia, veneno de escorpião
Mas dessa vez me perco sem foco.
Fico receoso e desconverso
Me perguntam quem me desafia
E vejo que, no fundo, os outros é que têm olhos de águia.

- Cuidado, estão nos vigiando
Ela grita, doida vegetariana.
Nossos passos são rastreados virtualmente.

- Apenas uma amiga
Despisto
Respondo sem saber ao certo
Será mesmo?

Enquanto me perco no louco devaneio
Imagino seu pijama novo baseado em ficção.
E, ao fim, percebo que somos dois irreais,
O personagem do filme e eu.

19 dezembro 2012

NO VERSO DO COMPROVANTE DE VOTAÇÃO

Bell, hoje encontrei na minha carteira o comprovante da tua votação de 2008. Antes de me entregar tu desenhou um rosto bobo e disse que era o meu. O rosto dizia que eu gostava de ti e eu neguei só por bira. Antes de me entregar tu disse que havia anulado o voto. Disse que a esquerda não era mais a mesma e que naquele instante o protesto era todo teu. Bell, tu lembra que rolávamos de rir ao assistirmos os candidatos na tv? Era um bando de patifes que nos enchiam a boca de xingamentos. Era nossa programação noturna favorita naquela época.

Bell, tu votou este ano? Não sei mais nada de ti. Não sei a cor que tu usa atualmente no cabelo ou se ainda prefere o vermelho nas unhas. Tu ainda carrega aquele botton dos Beatles que te dei? Até tentei, mas não tive coragem de te esperar na frente da tua sessão de votação, número 94, zona 33. Tive medo de tu me ignorar como ignorava quem tentava lhe entregar um panfleto de candidato na rua. Tive medo de tu rir da minha cara besta, das minhas promessas, da minha falta de jeito em frente à câmera. Fiquei sem ação, fiquei em casa, Bell. Fiquei me espelhando na cara boba desenhada no verso do teu comprovante de votação de 2008.