27 maio 2008

SEIS CIDADES

Há músicas que se vão, que não são mais ouvidas com o passar do tempo, esquecidas, ou deixadas de lado por consciência mesmo. Entretanto, assim como lembranças enterradas no ócio do coração, elas voltam do nada, e com elas trazem uma mochila carregada de sentimentos, flashes sucessivos atrelados a histórias que a poeira cobriu. Não sei afirmar se isso é bom ou ruim, creio que depende muito da paz de espírito vivida no instante em que isso ocorre, como ocorreu hoje. “Meu coração é tão tosco e tão pobre, não sabe ainda os caminhos do mundo”.

27 abril 2008

PELE

Logo não mais fará parte
Estará separado em duas lacunas
Dois lados distintos
E meios termos de parcialidade declarada.
Cada beijo
Cada reza
Aperto de mão
Abraço gelado
Bebida dividida
Música desafinada
Passo em falso
Sorriso sincero
Amor breve
E de intensidade eterna.
Ficarão as marcas
As manchas
As rugas
O início de calvície
A incerteza
Vontade tardia de transformação
A barba por fazer
A casa pra mudar
A vida pra se reciclar.

18 março 2008

NADA ALÉM DO ÓBVIO















Quero viver loucamente apaixonado
Quero acordar e lembrar de meus sonhos mais idiotas
E junto com a lembrança
Sorrir feito um menino.
Quero viver seriamente feliz
Quero sair de mãos dadas debaixo de chuva
Deitar e dormir no colo
Cochilar em frente a um programa chato de tv.
Quero partir minha alma com amor
Quero queimar no sol
Sentar, esperar e ver o dia passar
Esquecer que um dia houveram relógios.
Quero chorar com um sorriso aberto
Quero dizer adeus com o coração apertado
Olhar para trás e viver tudo novamente
Cada segundo, cada reza, cada beijo.
Quero abraçar e sentir o calor me aquecer
Quero sentir o cheiro do abraço em meu corpo logo depois
Ficar sem fazer nada
E assim construir uma nova história.
Quero escrever “eu te amo” com o dedo na vidraça
Quero ver sumi-lo logo depois
Mas ver também a expressão no rosto
E o amor entre os dentes.

POR DETRÁS DOS OLHOS

Atrás do verde
A escuridão
Atrás da nobreza
A população.

Plantação ao lado
Da selva de pedra
Indivíduo mudo
Perdido no escuro.

Ferramenta na mão
Avião no céu
País em construção
Bombas ao véu.

Tristeza no rosto
É claro o desgosto
Da vida banal
No país do carnaval.

17 março 2008

TEMPO















E quanto a nós
Morremos aqui
Mendigando um dedo de Deus
Esperando a febre passar
O sol aquecer nossos rostos
E a água refrescar nossos corpos.
Sonhamos com dias melhores
Com dores menores
Com sorrisos sinceros
E amores eternos.
Escondemos nossos corações
Lutamos para não chorar
Fingimos compaixão
E damos tempo ao tempo.