31 agosto 2008
AS GRANDES MINÚCIAS COTIDIANAS DA INCRÍVEL VIDA DE AVENTURAS E CRISES DE ABSTINÊNCIA
Agarro cada cor reluzida por teu olhar castanho
E me deixo partir sem rumo.
21 agosto 2008
NENA
Ao redor de sua cama.
Se me vires, não fale nada
Deixe-me passar até sair de sua vista.
Siga-me de olhar saudoso
Diga-me adeus de maneira racional.
Feche a janela para que eu não volte a entrar
E a deixe-a fechada para que o resto de nosso amor não saia
Com o vento quente do fim do inverno.
13 agosto 2008
“PODE PASSAR, A ENTRADA É FRANCA!”
Naquela manhã acordara cedo com o intuito de evitar o desaforo de pegar o ônibus lotado logo no primeiro dia de trabalho da semana. Aquilo o sufocava. O ar rarefeito dentro do veículo, o empurra-empurra e o balanço descompassado o deixavam de mau humor. Resolveu então sair antes, passou na padaria perto de casa, tomou um café amargo e comeu um pastel que pingava o óleo da fritura recente. Caminhava com certa pressa. Seu ponto de entrada era às 8h15. Porém, o acontecimento era grandioso e o misto de curiosidade e emoção o deteve.
Ao seu lado se encontrava uma senhora de criança ao colo, na frente um rapaz engravatado e atrás um conhecido do condomínio onde Antônio trabalhava. “Que acidente incrível, né ,Toni?! Olha como ficaram as crianças”, comentou com entusiasmo e cercado de curiosos hipnotizados pelo fato. “É tão emocionante um acidente de verdade. Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre*”, pensou em voz alta sem perceber. De maneira hipócrita o olharam com repressão.
A cada visão panorâmica Antônio percebia que a multidão aumentava, o que dificultava o trânsito no local e fazia com que a polícia construísse um cordão de isolamento. Certamente o fato seria o comentário da semana na cidade, e disso ele teve certeza quando notou a chegada da imprensa. Vinham como corvos ao avistar o alimento em putrificação. Tomaram conta do ambiente, eram soberanos. Aquilo causou inveja na maioria das pessoas afastadas pelo policiamento e que passaram a observar tudo à distância, incluindo Antônio.
O homem então começou a prestar atenção nos repórteres que se debatiam pelo melhor ângulo, pelo melhor depoimento. Fotógrafos e cinegrafistas se deliciavam registrando cada passo do resgate, os danos do acidente, o saldo de feridos e mortos. A repórter da TV tomava o relato da mãe de uma das vítimas que acabara de chegar ao local. Aos prantos ela falava e chorava em frente à câmara, bombardeada por perguntas. “Será um prato cheio para a hora do almoço”, pensou ele se referindo aos telejornais que dominavam o horário do meio-dia. Sentiu náuseas. Virou as costas e seguiu de maneira atrasada ao emprego.
Era forte o cheiro do sangue fresco e amargo que continuava escorrendo sobre o asfalto quente daquele início de semana trágico e divertido.
*Metrópole – Legião Urbana
13 junho 2008
MIGALHAS DE UMA SEXTA-FEIRA OCIOSA
Ela me deixa na mão. Fico apreensivo. Não sei se fantasio. Afinal, minha mente é um poço de autoficção. Mas seria um belo filme.
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Sua foto arquivada na gaveta do criado mudo volta à tona e supera a poeira que encobria o sentimento soterrado pelo tempo.
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Chegou em casa cansado do ócio tedioso que foi o dia trabalho. Estava faminto. Geladeira vazia, tarde fria, cabeça fervendo. Utopia, insegurança, indecisão e vontade de ligar. Não saberia o que dizer. Nem teria o quê. "Boa noite, como foi seu dia?" Não passaria disso. Deixa pra lá.
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“Eu rabisco o sol que a chuva apagou*”. Como achava bonita essa frase da letra. Quantas vezes cantou essa música sozinho, em voz baixa, e pensou nela enquanto viviam separados pela distância. Era apenas um garoto que aprendia a viver sozinho e descobria as armadilhas do coração. Foi feliz.
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Frio. O cachecol passou a faz parte da sua vestimenta diária. Até começou a gostar de usá-lo. Água quente, caneca térmica, cheiro do café. Ah, que vício inseparável. A companhia era On the road de Keroauc. Sim, viajava.
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Em (re) composição. Esta era a ordem dos dias.
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Que nostalgia! Aquela agenda do ano de 2002 era um tesouro. Tinha até uma declaração de amor escondida numa página sem destaque. Mas como tinha destaque. Nunca se apegou a agendas e, como ganhou essa na faculdade, foi a primeira de sua vida. Que coisa. Era justamente a única que tinha guardado. As outras que vieram depois, também fruto de presentes, já não mais existiam. Como esses “regalos” que não o agradavam o perseguiam. Um somente restou.
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Sexta-feira 13. Que mito popular! Azar? Que nada! Pelo menos não estou na estrada sem respiro.
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E hoje à noite? Terminar com a dor de cabeça há de ser a primeira ação. Depois? Uma cerveja e uma conversa de bar com amigos é a melhor pedida. Esvaziar a garrafa e a cabeça cheia até a tampa.
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Sábado? Trabalhar o maldito inteiro! Domingo? Que incógnita! Pelo menos tentar fugir da melancolia que acompanha o primeiro dia da semana.
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Mas que ela me deixa na mão, ah, isso ela faz!
* Giz - Legião Urbana
10 junho 2008
A DOIS
Acordei e vi que casa estava toda por arrumar. Espalhada por entre as paredes ainda encontrava a lembrança de seus passos que eu seguia para satisfazer minha alma. Agora caminho sozinho, no entanto, não consigo me convencer de que isso seja realmente o melhor para mim. Não me importo, apenas sigo.
Espada na mão, armadura vestida, posição de batalha. Amanhã é outro dia e a luta terá um novo capítulo. Melhor seria a dois.
27 maio 2008
SEIS CIDADES
Há músicas que se vão, que não são mais ouvidas com o passar do tempo, esquecidas, ou deixadas de lado por consciência mesmo. Entretanto, assim como lembranças enterradas no ócio do coração, elas voltam do nada, e com elas trazem uma mochila carregada de sentimentos, flashes sucessivos atrelados a histórias que a poeira cobriu. Não sei afirmar se isso é bom ou ruim, creio que depende muito da paz de espírito vivida no instante em que isso ocorre, como ocorreu hoje. “Meu coração é tão tosco e tão pobre, não sabe ainda os caminhos do mundo”.
27 abril 2008
PELE
Estará separado em duas lacunas
Dois lados distintos
E meios termos de parcialidade declarada.
Cada beijo
Cada reza
Aperto de mão
Abraço gelado
Bebida dividida
Música desafinada
Passo em falso
Sorriso sincero
Amor breve
E de intensidade eterna.
Ficarão as marcas
As manchas
As rugas
O início de calvície
A incerteza
Vontade tardia de transformação
A barba por fazer
A casa pra mudar
A vida pra se reciclar.
18 março 2008
NADA ALÉM DO ÓBVIO

Quero acordar e lembrar de meus sonhos mais idiotas
E junto com a lembrança
Sorrir feito um menino.
Quero viver seriamente feliz
Quero sair de mãos dadas debaixo de chuva
Deitar e dormir no colo
Cochilar em frente a um programa chato de tv.
Quero partir minha alma com amor
Quero queimar no sol
Sentar, esperar e ver o dia passar
Esquecer que um dia houveram relógios.
Quero chorar com um sorriso aberto
Quero dizer adeus com o coração apertado
Olhar para trás e viver tudo novamente
Cada segundo, cada reza, cada beijo.
Quero abraçar e sentir o calor me aquecer
Quero sentir o cheiro do abraço em meu corpo logo depois
Ficar sem fazer nada
E assim construir uma nova história.
Quero escrever “eu te amo” com o dedo na vidraça
Quero ver sumi-lo logo depois
Mas ver também a expressão no rosto
E o amor entre os dentes.
POR DETRÁS DOS OLHOS
A escuridão
Atrás da nobreza
A população.
Plantação ao lado
Da selva de pedra
Indivíduo mudo
Perdido no escuro.
Ferramenta na mão
Avião no céu
País em construção
Bombas ao véu.
Tristeza no rosto
É claro o desgosto
Da vida banal
No país do carnaval.
17 março 2008
TEMPO

E quanto a nós
Morremos aqui
Mendigando um dedo de Deus
Esperando a febre passar
O sol aquecer nossos rostos
E a água refrescar nossos corpos.
Sonhamos com dias melhores
Com dores menores
Com sorrisos sinceros
E amores eternos.
Escondemos nossos corações
Lutamos para não chorar
Fingimos compaixão
E damos tempo ao tempo.