20 outubro 2011

INSTANTE RETRÔ

Gostava de mascar chiclete com sabor de melancia. Confesso que nunca entendi a estranha preferência. Certa vez me disse que daquele modo sentia menos o gosto de cigarro de minha boca. Já eu sentia cada vez menos o gosto do beijo dela. Um dia até a prometi parar de fumar. Ela desapareceu de minha vida antes que isso acontecesse.

- Boa tarde! O que é para você, rapaz?
- Quero um chiclete. Pode ser aquele ali...
- Este de limão?
- Não. O de embalagem vermelha e verde.
- Ah, sim, o de melancia...
- É...
- Custa R$ 1,00. Cigarros também?
- Não, grato.
- De nada.
- Até mais.

05 outubro 2011

TARDE QUENTE DE INVERNO

Tarde quente de inverno,
Café gelado para matar minha sede.
Ah, que falta ela me faz! 
O que faria eu agora a seu lado?
A distância do tempo impede que minha mente conceba algo... 

O relógio marcava 11h38. Fazia calor naquela manhã de inverno. Acordei suado e de mau humor. Percebi estar meio cabisbaixo também. Acreditei ser reflexo do final triste do livro que acabei de ler na noite anterior. É uma pessoa triste com vocação para ser alegre*, dizia uma passagem da história. Como me caia bem.

*A trégua – Mario Benedetti

23 setembro 2011

A MIM

Me olhe
Me ouça
Me sinta
Me tenha
Me beba
Me mastigue
Me exprima
Me leve
Para dentro de ti.

10 setembro 2011

INVERNO DE 68

Dos teus olhos de ressaca
Me ficaram as gratas lembranças
Das tardes em que fomos
Felizes para sempre e

Dos segundos infinitos de calmaria,
Assim como os planos de velhice a dois
Em contos infantis
Com sonhos puramente alcançáveis.

Nas milhares de páginas
Que escrevi depois de acordado
Ficaram as doces marcas

E nelas resolvi não tocar
Para que o calor daquele inverno
Voltasse, às vezes, a aquecer minh'alma.

18 agosto 2011

DISTANTE

acordei longe

meu espírito
deixou meu corpo distante,
distante...

migrou sem destino
em busca dos sentimentos que perdi.

06 agosto 2011

NÃO LEVE A MAL, HONEY

Não leve a mal, honey
Mas não preciso mais
Do teu grito
Dos teus mitos
Da tua falta de amor.
Não me deixa saudade
Tua fobia
A falta de alegria
O receio da dor.
Cansei do teu cansaço
Do teu embaraço
Do teu riso sem cor.
Perdi a vontade
Da tua pele
Do teu pêlo
Dos teus apelos.
Perdi a vontade...
De ti.

17 julho 2011

NUMA TARDE DE INVERNO

era como se a nostalgia
me deixasse triste
ao ver sua foto ao chão
depois de cair
de um livro de Galeano
há tempos esquecido na estante.

08 julho 2011

PARA QUANDO VOCÊ PARTIR

Quando você for, meu amor, peço que vá por inteiro. Saia de manso, carregue o que é seu e me esqueça de vez. Mas leve tudo. Se precisar, compre novas malas e preencha cada espaço com coisas que não serão mais úteis para mim quando não existir mais nós dois. Carregue os frascos de perfume que lhe dei e os quadros, mesmo que fiquem espaços mais claros na parede por causa do tempo, que também desbotou nosso amor. Não deixe para trás pretextos para voltar, pois não lhe quero mais em meus braços, mesmo que meu corpo implore o contrário. E, ao sair, encoste a porta, porém, não esqueça de deixar antes para mim a sua chave. Preciso de garantias. E fique tranquila, do resto eu tomo conta, juro que tentarei. Seu cheiro irá sumir, os móveis da sala mudarei de lugar, os bilhetes apaixonados guardarei longe dos olhos. E as lembranças que surgem como flashes aos olhos fechados? Bem, essas eu ainda não sei o que farei.

01 junho 2011