22 fevereiro 2012

JOGO

eis que ela me mira
com aquele olhar baixo, direto
e eu vago, vago, vago...
perco a compostura.

deixo o conforto do meu eixo,
penso no próximo passo,
e minto para mim que ainda tenho
o controle da situação.

ela? não...

ela corre, desliza, instiga
e provoca o desafio.

saio da minha zona de equilíbrio,
luto, brigo e, ao fim,
entrego as peças do jogo...

então, convencida, ela vence
sem que, sinceramente,
eu tenha perdido.

13 fevereiro 2012

06 fevereiro 2012

RODOVIA DE MÃO ÚNICA

eu era uma rodovia de mão única
pela qual trafegavam
os caminhões de mudança
e levavam consigo as placas de direção.

24 janeiro 2012

ENGANO

adormeci entre taças de vinho e
sobre dezenas de crônicas
que não consegui dar fim.
em cada letra do diário
pensava ver o rosto dela
desenhado em tons sépia.
certo é que a solidão
era um engano causado
pela distância entre nossos corpos.

11 janeiro 2012

06 dezembro 2011

DESAPEGO

rastros de sentimentos
deixados pelo caminho
esquecidos junto
com o azul dos teus olhos.

19 novembro 2011

ENQUANTO VOCÊ NÃO VINHA

(Mesmo depois de tanto tempo eu ainda me perguntava se você voltaria)

Me debrucei sobre a janela do quarto na esperança de a ver subir pela rua lateral que dava acesso à nossa casa. Fazia frio e tive que dar mais uma volta no cachecol. As pessoas circulavam com sacolas de mercados e outras carregavam seus guarda-chuvas para se protegerem do céu cinza enquanto você não vinha. Reparei que o semáforo da esquina ficava aberto aos carros por 1 em cada 3 minutos, o que dava 20 minutos em uma hora. Nesse tempo não a vi em nenhum dos carros que pararam no sinal e muito menos a vi atravessar a rua entre os pedestres.

Nena, não sei se você algum dia notou, mas alguns cantos da janela do nosso quarto necessitam de reparos. A tinta está velha e até consegui rabiscar seu nome depois de tanto repetir as formas das letras forjando com a unha do meu dedo indicador esquerdo. O único momento em que a fechei foi quando começou a chover. Logo pensei em sair ao seu encontro. Fiquei com medo de que você não tivesse como se proteger daquela água que caia intensamente. Cheguei a abrir a porta e apagar a luz da sala, mas fiquei com receio de que aquilo parecesse desespero e impedisse sua volta, pois você precisava der ar, não é?

Desisti e resolvi ir à cozinha preparar um café para nós dois, mas do jeito que você gostava. E ali fiquei esperando, sentado à mesa, enquanto a bebida esfriou, assim como esfriou minha esperança e não a vi voltar.

(Todas as manhãs ainda abro a janela e reparo nos rostos que cruzam o sinal. Nunca a reformei e seu nome continua lá rabiscado).

06 novembro 2011

DESPERTAR SAUDOSO

Levantei da cama na ponta dos pés e vesti-me com destreza, sem cometer movimentos bruscos. Levei meu all star branco pela mão e fechei vagarosamente a porta do quarto, evitando o menor ruído possível. Pensei ter saído sem acordá-la, enquanto ela lamentava a falta de meus braços.

20 outubro 2011

INSTANTE RETRÔ

Gostava de mascar chiclete com sabor de melancia. Confesso que nunca entendi a estranha preferência. Certa vez me disse que daquele modo sentia menos o gosto de cigarro de minha boca. Já eu sentia cada vez menos o gosto do beijo dela. Um dia até a prometi parar de fumar. Ela desapareceu de minha vida antes que isso acontecesse.

- Boa tarde! O que é para você, rapaz?
- Quero um chiclete. Pode ser aquele ali...
- Este de limão?
- Não. O de embalagem vermelha e verde.
- Ah, sim, o de melancia...
- É...
- Custa R$ 1,00. Cigarros também?
- Não, grato.
- De nada.
- Até mais.