07 maio 2012

NAS TARDES DE DOMINGO

Arrumei tua mala com todo o carinho restante e olhe, meu querido, não é pouco. Dentro até  coloquei umas folhas secas de acácia para perfumar. Quero que tu vás bem, de cabeça erguida, limpo. Teus óculos escuros estão no bolsinho da frente. Certamente tu o usarás nestes dias claros. Aliás, tenho a impressão de que este sol do inverno parece deixar as manhãs mais coloridas, com mais vida. É disso que precisamos, vida. Por isso, parta e não te preocupes comigo, não te preocupes se eu ficar partida. E, se por acaso perguntarem por mim, apenas digas que fiquei bem, sóbria, embora pela metade.

E eu sei que sentirei tua falta nas tardes de domingo...

27 abril 2012

GRACIAS POR EL FUEGO

Risquei o último fósforo e saí pela casa procurando um lugar confortável para descansar. A chama iluminava pouco, mas o suficiente para eu poder caminhar por entre os cômodos empoeirados. Andei por horas. Nada. Não encontrei um canto se quer. Estranhamente, mesmo pálida, a chama continuava a me acompanhar. 

O silêncio do local era ensurdecedor e o vazio imperial transbordava sobre minhas costas cansadas. Em meio à escuridão, a chama, cada vez mais escassa, contrastava com meus olhos castanhos, baixos, prófugos. Fechei-os. Assim podia imaginar o que quisesse e com a luz que desejasse. Entretanto, sabia que difícil seria novamente abri-los para a realidade. 

No fim, acabamos por desistir. A chama e eu. Senti seu calor acariciar a ponta dos meus dedos. Antes que  ela morresse de vez aproveitei para acender um cigarro. Fumei-o como se fosse o último. Tive a impressão de que realmente era. Ela apagou. Eu nunca mais abri meus olhos.

17 abril 2012

QUANDO TUDO PARA

e quando meu corpo cola no teu
quando teu cabelo mistura no meu
quando minha voz encontra tua fala
e a sintonia toma conta da sala

eu nem me importo com as linhas
as cores, a pintura ou a tela

e não me faz mais diferença saber
o que ocorre
do lado de fora da janela.

10 abril 2012

30 março 2012

CRÔNICA DA INSUFICIÊNCIA

“Preciso escrever e não consigo.
Você pode sair um pouco de minha mente?”


Naquela madrugada essas foram as duas únicas frases que consegui escrever. Entretanto, elas encheram a página, transbordaram no ambiente e deixaram a imagem dela ainda mais impregnada nas paredes da casa. Parecia sentir seu cheiro. Poderia jurar. A máquina de escrever era a companheira de noites febris invadidas pela melancolia, insuficiência e doses de conhaque.

22 março 2012

GRIS PERFEITO

"Os olhos dela buscam calmaria
Nos dias imaculados pela eminência da chuva.
Carregam junto um sorriso que se abre
Ao ver o céu, pálido, abraçar o mar"
.


Mariana viu as frases escritas num muro de seu bairro e, por um instante, achou que haviam sido perfeitamente desenhadas para ela. Chegou a ficar em dúvida se realmente não eram. Mas, poderia ser apenas coincidência, afinal, talvez ela não fosse a única a gostar de dias assim. E sorriu. Virou as costas e se foi. Levava como companhia um céu riscado com nuvens grises que acariciavam seu rosto largando leves pingos de felicidade.

13 março 2012

BOM DIA

Quando despertou eu já a observava há um longo tempo. Aquele espreguiçar preguiçoso e o rosto de sorriso amanhecido enchiam meus olhos. Certo é que seria capaz de permanecer ali pelo tempo que a vida desejasse.

22 fevereiro 2012

JOGO

eis que ela me mira
com aquele olhar baixo, direto
e eu vago, vago, vago...
perco a compostura.

deixo o conforto do meu eixo,
penso no próximo passo,
e minto para mim que ainda tenho
o controle da situação.

ela? não...

ela corre, desliza, instiga
e provoca o desafio.

saio da minha zona de equilíbrio,
luto, brigo e, ao fim,
entrego as peças do jogo...

então, convencida, ela vence
sem que, sinceramente,
eu tenha perdido.

13 fevereiro 2012

06 fevereiro 2012

RODOVIA DE MÃO ÚNICA

eu era uma rodovia de mão única
pela qual trafegavam
os caminhões de mudança
e levavam consigo as placas de direção.