18 maio 2015

BOM DIA

Ela reclama de meu silêncio enquanto mastigo as suas palavras no café da manhã. Mato a fome devagarinho, como quem não tem pressa em terminar de ler o jornal. Seus olhos castanhos, grandes, me enquadram diante de minha expressão quieta.

- Me passa o açúcar, por favor - peço.
- Só se você adoçar essa cara amassada - me retruca imediatamente enquanto mantém o pote suspenso no ar com sua mão esquerda e tenta me tirar um sorriso.
- Não é questão de humor. Nem bom, nem ruim. Só não gosto de ficar conversando logo cedo - a respondo enquanto preparo minha bebida.
- Tá, sei... - murmura.
- Ok, então. Se você sabe, estamos ok - afirmo, cínico, tentando terminar o assunto.
- Ei, fui irônica - diz ela num princípio de fúria e dessa vez com expressão cerrada.

Levanto meus olhos e a miro. Ela move os dela para uma outra direção bem distante de mim. Me ignora.
Eu, então, rio. Me delicio.

- Besta - me xinga enquanto usa o dedo para trocar de lugar os farelos de pão sobre a mesa.
- Bom dia, meu bem! - digo enquanto levanto e beijo sua testa.

E iniciamos, assim, o dia.

16 maio 2015

VÁCUO

o problema
é que eu
já sinto
a falta
das terças
ociosas
que não
passei
ao teu
lado.

26 abril 2015

120 SEGUNDOS

você saiu e eu fiquei como
se tivesse perdido
aquele botãozinho para girar
os ponteiros do relógio.

então, me dei conta
de que o tempo
rastejava preguiçoso
com segundos em dobro.

era possível atravessar a rua
bailando, zombando do semáforo
e ainda assistir os carros

contando os centímetros do asfalto.
e era bem mais longo o dia
sem você.

22 março 2015

O CASÓRIO

Veja bem, meu bem
Que desfeita
Por meio de silêncio
Dificilmente eu faria


Nem distante
Nem no cotidiano
Dessa minha correria
Te ignorar eu ousaria.

Eu digo mais:
Num sábado logo cedo
Sem receio ou algum medo
À beira do lago te levaria

Sobre a grama verde
Ao som de Beatles
Com teu riso e tua poesia
Junto a mim te casaria.

13 novembro 2013

DOCE RENDIÇÃO

e nos dias cinzas
que tomam conta do meu cotidiano
do céu que cai cedo
como se fugisse do frio

do vento que sopra sem direção
varre meu o cabelo
gela a minha boca
e arrepia o pelo

do calor que toma conta da cama
e me enche de preguiça
ao ver a chuva lá fora
que se demora

do inusitado
as ruas, a música
o bar e a falta de dinheiro

os olhos dela
viraram
minha doce
rendição.