20 março 2010

EFECTO

Abro os braços e peço licença aos céus. Deixo a chuva acariciar minha face enquanto sigo para qualquer direção que me tire dessa bolha sem ar. Ah! Como é bom sentir o frio que gera esse clima sublime... Meu sorriso, antes taciturno, agora abre o caminho. Sigo, ando, tropeço, continuo. Minha mochila ainda está cheia, mas não pesada como antes. Logo ela, assim como eu, descansará em paz.

19 março 2010

MÚSICA SEM REFRÃO

Eu tentei buscar
Qualquer ajuda
Pra te esquecer, meu bem
Mas não foi fácil
Descolar você de mim
Era mais forte
Do que eu mesmo imaginei.
E mesmo sem pensar
Tudo era feito
Pra te agradar, meu bem.
Mesmo sem vê-la
Sempre estava junto a mim
Em cada verso
Em minha história sem fim.
E a vida assim passou
E minha espera terminou
Sem ter você
E não foi fácil descolar você de mim
Era mais forte do que eu mesmo imaginei
E agora ando assim
Sempre atrasado
E esperando o sol se pôr
Com passos tortos
Sem saber a direção
De braços dados
Com eu mesmo por aí.

22 fevereiro 2010

MERCÚRIO CROMO

E o tempo, meu querido blog, é mercúrio cromo
Assim como já dizia o cantor*
E por isso, meu blog,
Fiel confessionário de minhas variações emocionais
A ti peço um tempo
A ti propicio um tempo
Para que separados,
Mas ainda assim juntos,
Possamos novamente respirar
E para que, talvez um dia,
Lado a lado possamos outra vez navegar.

*Renato Russo - La nuova gioventú

10 dezembro 2009

CINZA

É, baby
Hoje o dia nasceu
E minha tristeza apagou o sol
E o que vejo por detrás das nuvens cinzas
É o novo outra vez.
Mas o novo me cansa
Censura meus planos
Corta meu sorriso.
O tempo, baby, foi grato e infiel
Nos deu uma rasteira.
Abriu o caminho e fechou as portas
Deixou-nos com as malas desarrumadas
Sem abrigo sob essa chuva sem fim.

26 maio 2009

DA MONTANHA MÁGICA

Da montanha mágica formato um mundo em (des)construção
Finjo compaixões e escapo dos sorrisos sem cor
Abraço o tempo fugidio e deslizo em nuvens cinzas.
Da montanha mágica pinto rostos ensolarados
Acariciados pela penumbra da manhã que nasce
Pela chuva fina da calmaria de tardes de inverno.

Na montanha mágica sorrio
Passo por cima do caos
Percorro a circunferência
Da beleza escondida nos olhos baixos.
Na montanha mágica me apaixono
Entrego minha mão ao ser que julgo completo
Repleto de defeitos confortáveis
Que incapacitam minha alma de condenar.


Bendita seja a petulância na qual a riqueza de espírito e alma vale mais do que a estética efêmera e narcisista de indivíduos instantâneos.

18 março 2009

TRAVESSIA

Pego esse trem que corre devagar
E mais devagar vaga minha mente
De sonhos feitos de papel
E amarguras largadas ao vão.
Parto de corpo e espírito
De coração solitário
De sorriso solidário.
Contemplo a beleza do silêncio
Imagino relógios contra o tempo
Em tempos de sol e chuva
E dias de nostalgia sem fim.

17 dezembro 2008

COMO DEVERIA ESTAR

De que é composto o novo
Num labirinto que cheira a pó de estante?
Um fragmento de nostalgia
Uma peça que retrate um amor previamente definido
Com felicidade e utopia?
Qual é a cor do sorriso
Que sem graça reflete o coração vazio?
Laranja como o crepúsculo de fim de dia
Veraz como o azul do céu sem nuvens
Ou gris de tardes alegres imaculadas pela chuva?

O passo não é mais sentenciado pelo ceticismo
Nem mesmo venerado com a fé cega.
O chão responde de maneira firme, dura
Capaz de vibrar, mas não quebrar.
O pó que agora levanta
Esconde as velhas marcas
Do pulsante inábil e sentimento.
O olhar contempla cada movimento
Cada cor reluzida no breve silêncio.

Apertou-me a mão sem compromisso
Não poderia esperar o contrário
Saiu e sequer olhou para o lado.
Deixei-a ir sem pressa
E sem pressa voltei para dentro de mim
Ensaiei um sorriso breve
Mas contentei-me
Com o momento afetuoso de calmaria.

20 novembro 2008

VERSOS DOS 26

Nem sei que cor leva meu rosto hoje
Meu espelho reflete apenas marcas
Um olhar saudoso e hematomas emocionais.
Talvez seja o mesmo rosto de um ano atrás
Ou o rosto que ainda levarei por algum tempo
Mas inconfundivelmente é meu rosto.
Algumas rugas mais tarde o vejo
Atrás de um óculos que mais parece enfeite
E barba rala que insiste em não crescer.
No entanto, mesmo assim me felicitam
Me gracejam por um ano a menos de vida
Em um dia que me soa como os demais.
Deixo o espelho de lado e saio
Evito pensar no que o restante do tempo me reserva
Enquanto espero o ano que vem.

03 novembro 2008

DA BELEZA DA INCERTEZA

Sou incapaz de decifrar seus passos
Ela me intriga, me instiga
Caminha no paralelo entre a razão e a emoção.
Sorri com o laranja que se abre no céu
[Entre nuvens pálidas]
Após um dia alucinógeno de calmaria.
O início do fogo de fim de tarde
Contrasta com seus olhos verdes, prófugos.
Porém, não me entrego ao vício.
Busco diversão em outras peles
Em outras cores, outras gotas de suor.
Pouco adianta.
Abro meus olhos castanhos
E minha retina procura o novo da sua
Quer seguir os movimentos improváveis de seu corpo 

Andar na linha tênue da incerteza
À procura de aventura instável
De leituras clichês em início de madrugada
Com cheiro de café quente
E divagações em silêncio.
Minha mente ferve, viajo, nada encontro.

Lá fora faz uma noite úmida e quente
E o vento que entra pela janela
Ameniza minha febre.
Sento na cama e acendo outro cigarro.
Vejo a cinza deslizar delicadamente pelo ar
Antes de xingar o chão.

Aparecerá novamente esta noite?

26 outubro 2008

OS POBRES CAVALEIROS ALADOS*

Hoje é domingo, mais um dia de batalha. Como sempre, alguém sairá vitorioso e conquistará a mais bela entre as dezenas de donzelas e, certamente, a levará para passear em um lugar mágico no qual novas vidas podem ser criadas. As donzelas também travam belas disputas, cada uma com o traje que julgam ser o mais adequado. Algumas usam uma espécie de pó sobre os olhos e umas roupas que, segundo as ninfetas, ajudam na conquista de espaço no cavalo dos guerreiros. Já os guerreiros cavaleiros batalham a semana toda, mas têm suas recompensas nos momentos de lazer. Esses momentos são frutos de muitas economias, pois no Reino dos Cavaleiros Alados os salários não são tão altos assim.
Muitos desses cavaleiros sequer possuem casa fixa, estudo ou muito conhecimento. No Reino dos Cavaleiros Alados isso não é muito importante. Esses cavaleiros possuem os mais belos trajes e os mais belos cavalos, que os ajudam no crescimento pessoal e na conquista de diversos bens importantes, como a fama e principalmente muitas das mais belas donzelas. As demais posses são secundárias e o que importa é o momento, já que no dia seguinte tudo começa novamente. A idade avançada não parece ser problema. Isso porque essas batalhas entre os mais belos e fortes cavalos não são apenas travadas entre jovens. Não é raro ver cavaleiros mais experientes lutando na conquista das jovens donzelas e na marcação de seu território através dos relinchos de seus cavalos. No Reino dos Cavaleiros Alados alguns cavalos são mais importantes do que a vida de diversas pessoas.
Neste reino, a honra de ter o cavalo mais forte e mais preparado vale um duelo de demonstração do poder, garantindo uma reputação para impressionar as donzelas e criar inveja e respeito aos que não têm cavalo. Este ritual de adoração aos cavalos faz com que hajam seguidos desafios entre os guerreiros. O ritual de disputa é muito interessante, valendo a pena ser citado:
– Os cavaleiros se encontram no campo de batalha. A honra está em jogo. Afinal, os cavaleiros precisam mostrar o vigor de seus cavalos alados. É uma batalha que não podem perder, pois cada cavalo alado, com suas armaduras reluzentes, suas patas lustrosas e imponentes, comprovam o quanto estão bem cuidados e são predominantes no reino de “Cavaleiros Alados”. Cuidado este que, em outros tempos, eram para preservação do animal e não uma simples vaidade de seus cavaleiros. Qualquer lugar ou dia é hora para duelar. A plebe, atônita, acompanha cada minutos com um fascínio típico dos grandes espetáculos. Panes et circencis, ou melhor, pão e circo!
O infeliz bobo da corte, com suas roupas alegres, última moda num reino materialista e distante, chapéu com guiso, olhos tristes e cansados, com sonhos tão simples e superficiais, caminha – sempre pensando: “Ah, quem me dera ser um destes cavaleiros! Possuir um belo cavalo e conquistar as mais belas donzelas” – lentamente em direção ao centro do campo de batalha. Portando em suas mãos uma bandeira vermelha, prepara-se para ter seus dois segundos de fama, que assegurarão bom sonhos – que nunca se concretizarão – mais tarde. Empunha a bandeira bem acima da cabeça e, num gesto rápido abaixa sua tola arma. Cavalos disparam sob o comando seguro de seu cavaleiro pela grande pista, dividida por um belo canteiro central e diversos sinais que podem ser entendidos, mas não obedecidos pelos donos dos cavalos. As donzelas levianas acenam seus lenços, decotes e outros acessórios – antes não permitidos por seus pais, mas agora usados a fim de obter a atenção, garantindo assim, um confortável e luxuoso palácio situado no centro do Reino dos Cavaleiros Alados: lar de egocêntricos cavaleiros materialistas.

*Com Carlos Pace Dori